O caso do cão Orelha chocou o Brasil, mas não é isolado. Entenda o porquê respeitar cães de rua e comunitários é uma questão de ética, segurança e humanidade.
Quem era Orelha.
Orelha não era “apenas um cachorro de rua”.
Era um cão comunitário, daqueles que ganham nome, água, comida, carinho e fazem parte da paisagem afetiva de um bairro.
Ele vivia na Praia Brava, em Florianópolis, era acompanhado por moradores e comerciantes, conhecido por quem passava ali todos os dias.
Mesmo assim, foi atraído, agredido com extrema crueldade por adolescentes e, após dias de sofrimento, precisou ser eutanasiado devido às lesões graves.
Logo, a morte de Orelha repercutiu na imprensa nacional e internacional, virou pauta em grandes veículos e acendeu um alerta sobre a violência contra animais.
Mas, mais do que um caso, ele é um símbolo.
Cão comunitário.
Um cão comunitário não tem tutor único, mas tem rede.
Ele circula por uma área, recebe alimento, abrigo improvisado, água fresca e, muitas vezes, cuidados de saúde de moradores, lojistas e protetores.
Ou seja, para quem vive na região, esses cães são parte do cotidiano: acompanham caminhadas, esperam na porta da padaria, fazem guarda afetiva de ruas e praças.
Eles pertencem ao lugar e, de certa forma, o lugar também pertence a eles.
Quando um animal assim é agredido, o impacto não é só nele.
É em toda a comunidade que o acolhe, nas crianças que brincavam com ele, nos idosos que o cumprimentavam, em quem encontrava nele um ponto de luz na rotina.
O que aconteceu?
No caso de Orelha, imagens e relatos mostram que ele foi atraído e submetido a agressões graves por adolescentes, em sequência, até ficar em estado crítico.
Internado e acompanhado, não resistiu às consequências do que sofreu e então, foi submetido à eutanásia humanitária, para interromper a dor.
As investigações apontam maus-tratos, crime previsto em lei, e os jovens são alvo de inquérito e medidas na área da infância e juventude.
Ao mesmo tempo, o caso levantou debates sobre responsabilidade de plataformas digitais, já que há redes que lucram com vídeos de tortura animal e estimulam desafios cruéis.
Então o “orelha” virou manchete, hashtag, protesto, moção pública.
Mas, nas entrelinhas, ele é o rosto de milhares de cães sem nome que sofrem longe das câmeras.
Crueldade não é exceção
Especialistas em proteção animal lembram que o que aconteceu com Orelha “acontece todos os dias”, só que sem filmagem, sem viralização, sem comoção.
Como, por exemplo, pedradas, envenenamento, pauladas, queimaduras, atropelamento proposital, abandono em rodovias: a lista é longa e dolorida.
Portanto, o maus-tratos contra animais não são “casos isolados de psicopatas”.
Eles revelam uma cultura que ainda normaliza a violência contra os mais vulneráveis, principalmente quando não têm tutor, cor, raça, classe ou sobrenome para defendê-los.
Ignorar, rir, minimizar ou compartilhar conteúdo cruel sem denunciar é parte do problema.
É o silêncio que permite que a história se repita.
Lei e responsabilidade
No Brasil, maus-tratos contra cães e gatos é crime, com pena que pode chegar a vários anos de prisão, além de multa.
Isso vale para animais com tutor, para cães de rua, comunitários e para qualquer indivíduo que sofra violência intencional.
No caso de Orelha, por envolver adolescentes, entram também normas de proteção ao jovem, investigação pelo Ministério Público e medidas socioeducativas.
Não é uma questão apenas penal, mas também de políticas públicas, assistência psicossocial e educação.
A existência de lei, porém, não basta se a sociedade não enxerga o animal como ser senciente, capaz de sentir dor, medo, apego e sofrimento emocional.
Respeito não nasce só do medo da punição; nasce de empatia construída.
Cães de rua não são lixos.
Cães de rua, comunitários ou em situação de abandono ainda são vistos, por muitos, como incômodo ou “coisa”.
Isso abre espaço para atitudes como:
chutar “para afastar”, jogar água quente, deixar sem comida, usar o animal como alvo de frustração.
Mas esses cães:
- sentem dor como qualquer pet de apartamento.
- se apegam a pessoas e rotinas.
- sofrem quando são rejeitados ou agredidos.
- podem desenvolver medo, fobia, agressividade defensiva após traumas.
Tratar um cão de rua com respeito básico, logo, não bater, não expulsar de forma violenta, não ferir — é o mínimo ético.
Oferecer água, comida, abrigo improvisado e acionar projetos de castração e adoção, quando possível, é um passo além.
Educação e espelho
O caso Orelha também coloca um espelho na frente dos adultos.
Crianças e adolescentes não nascem agredindo animais.
Eles aprendem, direta ou indiretamente, que vidas podem ser descartáveis.
Aprendem que chutar um cão “não é nada de mais”.
Aprendem que rir de sofrimento é entretenimento, principalmente se isso rende visualizações e curtidas.
Por isso, falar sobre respeito a animais em casa, na escola, em projetos sociais e na mídia não é “mimimi”.
É prevenção de violência futura — contra animais e contra pessoas.
Há estudos e relatos mostrando correlação entre crueldade com animais na infância e adolescência e violência interpessoal na vida adulta.
Cuidar desse tema é cuidar da saúde da sociedade como um todo.
Redes e lucratividade
Uma parte incômoda da história está nas redes.
O caso de Orelha reacendeu o debate sobre plataformas que hospedam, monetizam e recomendam conteúdos de tortura animal.
Algumas comunidades virtuais incentivam desafios cruéis, vendem vídeos de sofrimento e criam um ciclo de normalização da violência.
Cada clique, cada compartilhamento, cada comentário indiferente alimenta esse ciclo.
Por isso, não basta sentir revolta pontual.
É fundamental:
- não consumir esse tipo de conteúdo
- denunciar perfis, vídeos e comunidades que exibem maus-tratos
- pressionar plataformas e autoridades por políticas mais firmes de remoção e punição
Respeito também passa pelo que escolhemos ver e divulgar.
Como agir no dia a dia
Respeitar cães de rua não é só “não maltratar”.
É transformar esse respeito em ação concreta.
Algumas atitudes possíveis:
- oferecer água fresca em potes próximos a locais onde cães circulam
- deixar comida em pontos seguros, longe de ruas movimentadas
- apoiar campanhas de castração, vacinação e identificação de cães comunitários
- divulgar e colaborar com ONGs e protetores responsáveis
- não afastar ou agredir cães que repousam em calçadas, desde que não representem risco real
- educar crianças para fazer carinho apenas em animais tranquilos, sempre com cuidado, e nunca provocar ou assustar
E, diante de qualquer suspeita de maus-tratos, denunciar: delegacias, polícia, Ministério Público, canais municipais de proteção animal.
Homenagem necessária
Falar de Orelha com respeito é também não transformar a história dele em espetáculo de horror.
Ele não é “o cachorro torturado do vídeo”: é um indivíduo que tinha nome, rotina, afeto e história com um território.
Usar seu caso como marco de conscientização significa:
- lembrar o que aconteceu sem reproduzir a violência
- transformar indignação em educação, pressão e mudança
- reforçar que cães de rua e comunitários merecem proteção, não pena nem ódio
Orelha não volta.
Mas outros cães, invisíveis e sem nome, ainda podem ser protegidos se essa conversa não for esquecida assim que o assunto sai dos trending topics.


