A ração parece normal: crocante, colorida, o mesmo cheiro de sempre. Nenhuma mancha verde, nenhum fio branco aparente, nada que faça o tutor desconfiar. Mas, para alguns fungos, esse cenário é perfeito para produzir algo que não se vê a olho nu: micotoxinas, toxinas silenciosas capazes de transformar o pote do pet em uma ameaça diária.
Entender quando o mofo é visível, quando ele é invisível e como isso afeta a saúde de cães e gatos é o primeiro passo para proteger quem depende de você para comer com segurança.
Toxina invisível
Mofo é o nome comum que damos a fungos que crescem sobre alimentos e superfícies úmidas. Algumas espécies desses fungos, como Aspergillus, Penicillium e Fusarium, podem produzir micotoxinas — substâncias tóxicas que resistem a calor, tempo e processamento industrial.
A ração extrusada pode parecer intacta mesmo quando ingredientes usados na sua fabricação já estavam contaminados no campo, no transporte ou no armazenamento. Isso significa que, em muitos casos, não há mofo “peludo” visível, mas as toxinas já estão presentes, misturadas ao alimento.
De onde vem o mofo?
As micotoxinas entram na cadeia de alimentação dos pets, principalmente, por meio de grãos e ingredientes vegetais contaminados ainda na produção agrícola. Umidade excessiva, armazenamento inadequado, silos mal aerados e transporte em condições ruins favorecem o crescimento de fungos em milho, trigo, arroz e outros componentes comuns de rações.
Depois disso, se a matéria-prima contaminada não é detectada, o fungo — ou apenas sua toxina — segue para a fábrica, passa pelo processo de produção e chega ao produto final. Mesmo que o fungo pereça com o calor da extrusão, a micotoxina pode permanecer ativa, pronta para ser ingerida diariamente em pequenas doses.
Micotoxinas
Entre as micotoxinas que mais preocupam na alimentação pet estão as aflatoxinas, ocratoxina A, deoxinivalenol (DON), fumonisinas e zearalenona. Elas podem afetar principalmente fígado, rins, sistema imunológico e, em alguns casos, o sistema nervoso, causando desde sintomas discretos até quadros agudos graves.
A exposição pode ser aguda, quando o pet ingere uma grande quantidade em pouco tempo, ou crônica, quando consome pequenas doses diariamente ao longo de meses ou anos. Nos dois cenários, o risco é real e depende do nível de contaminação, do tempo de exposição e da sensibilidade individual do animal.
Sinais no corpo
Os sintomas de micotoxicose em cães e gatos são variados e, muitas vezes, se confundem com outras doenças. Entre os sinais relatados estão:
- Vômitos e diarreia recorrentes, sem causa aparente clara.
- Perda de apetite, emagrecimento e queda de desempenho.
- Letargia, fraqueza e alterações de comportamento.
- Icterícia (mucosas amareladas), aumento de enzimas hepáticas e sinais de doença no fígado.
- Tremores, convulsões e alterações neurológicas em casos mais graves.
Em intoxicações severas por aflatoxinas, por exemplo, podem ocorrer hemorragias, colapso e morte, principalmente quando há falha hepática aguda. Já na exposição crônica, o pet pode parecer “apenas mais apático”, adoecer com frequência ou apresentar alterações em exames laboratoriais sem um motivo óbvio.
Mofo visível
Nem todo mofo visível em ração significa que a toxina está presente, mas todo mofo visível é um sinal claro de que aquele alimento não deve ser oferecido. Em geral, o tutor pode notar:
- Pontos verdes, azuis, brancos ou pretos nos grãos da ração.
- Cheiro de ranço, umidade ou “porão”, diferente do aroma habitual do produto.
- Croquetes grudados, úmidos ou com aspecto pegajoso.
Nesses casos, o mais seguro é descartar o alimento, limpar o pote, verificar o local onde a ração estava armazenada e observar o pet para qualquer sinal de desconforto gastrointestinal ou apatia.
Mofo invisível
O maior desafio é que as micotoxinas podem estar presentes mesmo quando não há nenhum sinal evidente para olhos ou nariz. O pet pode estar consumindo, dia após dia, um alimento com níveis baixos de toxinas, suficientes para ir afetando lentamente fígado, rins e sistema imunológico.
Por isso, além de observar o aspecto da ração, é importante:
- Acompanhar notícias sobre recalls e alerta oficiais envolvendo marcas de ração.
- Conversar com o veterinário sobre a possibilidade de micotoxicoses quando há sintomas não explicados por outras causas.
- Realizar exames periódicos, principalmente em pets que consomem sempre o mesmo tipo de ração e começam a apresentar alterações hepáticas ou renais.
Fábricas e limites
Em resposta à preocupação global com micotoxinas, órgãos reguladores passaram a definir limites máximos permitidos dessas substâncias em alimentos para cães e gatos. No Brasil, uma portaria recente do Ministério da Agricultura estabeleceu valores de referência e prazos para adequação da indústria, com foco em reduzir riscos de longo prazo para os pets.
Além disso, fabricantes sérios investem em monitoramento de matéria‑prima, testes laboratoriais e aditivos sequestrantes que ajudam a reduzir o impacto das micotoxinas na ração final. Mesmo assim, nenhum sistema é perfeito, reforçando o papel do tutor atento na ponta da cadeia.
Armazenar bem
O armazenamento em casa pode piorar ou amenizar o risco de mofo. Umidade, calor e exposição ao ar favorecem o crescimento de fungos e aceleram a deterioração de gorduras, mesmo em rações inicialmente seguras.
Boas práticas incluem:
- Guardar a ração em local seco, arejado, longe de sol direto e fontes de calor.
- Manter o alimento na embalagem original, bem fechada, e colocá‑la num recipiente hermético.
- Evitar despejar a ração solta no pote sem a proteção do saco original.
- Não armazenar ração em geladeira ou freezer, pois a umidade favorece o mofo quando o saco é reaberto.
- Comprar quantidades compatíveis com o consumo do pet, evitando estocagem prolongada.
Esses cuidados não eliminam micotoxinas que já estejam na ração, mas reduzem o risco de crescimento adicional de fungos e da formação de novos focos de mofo.
O que fazer se o pet comer ração mofada?
Se você perceber que o pet ingeriu ração com mofo ou se notar sinais estranhos após oferecer um alimento com cheiro ou aparência suspeitos, alguns passos são essenciais:
- Suspender imediatamente o alimento, descartando o restante do lote suspeito.
- Observar o pet nas horas e dias seguintes para vômito, diarreia, apatia, tremores ou qualquer alteração de comportamento.
- Buscar orientação veterinária quanto antes, especialmente se surgirem sintomas gastrointestinais, neurológicos ou sinais de dor.
- Informar marca, lote e validade da ração ao profissional, que poderá decidir sobre exames e notificação.
Em casos de suspeita de intoxicação aguda, intervenção rápida pode fazer a diferença entre um quadro reversível e danos permanentes.
Veneno diário ou cuidado diário?
O mesmo pote que pode se tornar fonte silenciosa de toxinas também pode ser o símbolo de cuidado, rotina e saúde — depende de como cada etapa é conduzida. Ao entender que micotoxinas não são “história de laboratório distante”, mas algo que começa no campo, passa pela fábrica e termina na cozinha da sua casa, o tutor ganha a chance de mudar o roteiro.
Escolher bons fabricantes, armazenar corretamente, observar o alimento e ouvir o que o corpo do pet está dizendo são atitudes que transformam o “veneno invisível” em algo que perde espaço diante de escolhas conscientes. No fim, cada colherada que cai no pote passa a ser mais do que comida: é um capítulo de uma história de prevenção escrita diariamente.


