Brincar com gravetos parece inofensivo, mas pode causar feridas, engasgos e perfurações graves em cães. Entenda os riscos e veja opções seguras para seu pet.
Cena clássica.
Parque; gravetos voando.
Cachorro correndo em câmera lenta.
Na nossa cabeça, é cena de filme.
No corpo do cão, pode ser o início de um pesadelo clínico.
Veterinários relatam casos de cães com cortes profundos na boca, farpas cravadas no céu da boca, perfurações de garganta e até lesões em esôfago e intestino devido a gravetos.
Porque gostam.
Mas antes de falar de perigo, é importante entender o fascínio que são os gravetos para os cães, como, por exemplo:
- algo que se move rápido.
- tem cheiro de natureza.
- pode ser roído.
- aparece em momentos de interação com o tutor.
Ou seja: reúne textura, cheiro, movimento e vínculo social, tudo de uma vez.
É um pacote completo de estímulos; só que sem qualquer controle de segurança.
Riscos na boca.
O primeiro campo de batalha é a boca. Logo, quando o cão pega o graveto, morde, puxa, sacode, a madeira pode:
Portanto, esses fragmentos machucam gengivas, língua, bochechas, céu da boca e garganta.
Podem causar desde pequenos cortes até feridas profundas, muitas vezes invisíveis a olho nu.
Além da dor, essas lesões abrem porta para infecções, porque a madeira pode estar contaminada com bactérias, fungos e outros microrganismos.
Engasgos.
Outro risco imediato é o engasgo, isso acontece porque um pedaço de graveto pode:
- ficar preso entre os dentes.
- ficar atravessado no fundo da garganta.
- obstruir parcial ou totalmente a passagem de ar.
Sinais de alerta incluem:
- tentativa de vomitar sem sucesso.
- boca aberta, desconforto evidente.
- salivação excessiva, às vezes com sangue.
- choro, inquietação, batidas de pata na boca.
- dificuldade para engolir ou respirar.
Nessas situações, a urgência é real: o cão precisa de atendimento veterinário imediato.
Perfurações internas.
O perigo não acaba na boca.
Se o cão engole pedaços de gravetos, eles podem atravessar esôfago, estômago ou intestino como pequenas “lanças”.
As consequências incluem:
- perfuração de esôfago.
- perfuração de estômago ou intestino.
- hemorragias internas.
- peritonite (infecção grave no abdômen).
Por isso, que nesses casos, muitas vezes o problema só é descoberto quando o cão já está apático, com dor, febre, falta de apetite, tosse ou sinais vagos de mal-estar.
Muitos requerem cirurgia e internação intensiva.
Lesões de corrida.
Um dos cenários mais perigosos é o da corrida em alta velocidade. Isso porque o cão corre em direção a um graveto preso no chão ou segurado de forma errada e se “empala” na ponta.
As chamadas “stick injuries” em orofaringe são descritas como emergências cirúrgicas. Logo, o graveto pode penetrar macio do céu da boca, faringe e seguir em direção ao pescoço e ao peito, causando danos extensos.
Mesmo com cirurgia, lesões de esôfago associam-se a prognóstico mais reservado e complicações importantes.
Sinais tardios
Nem sempre o problema aparece na hora.
Um graveto pode machucar, deixar fragmentos presos e o cão até “melhorar” por alguns dias.
Depois, começam a surgir sinais como:
- inchaço no pescoço.
- febre.
- dor ao engolir.
- tosse persistente.
- secreção pela boca ou feridas no pescoço.
- perda de peso e apatia.
Contudo, nesses casos crônicos costumam ser mais difíceis de tratar e exigem investigação detalhada (exames de imagem, endoscopia, cirurgia).
Graveto x osso
Os riscos dos gravetos lembram, em parte, os riscos dos ossos: farpas, lascas, perfurações e obstruções.
Tanto que conselhos profissionais frequentemente colocam ossos e gravetos no mesmo grupo de itens “aparentemente naturais, mas potencialmente perigosos”.
Ou seja: ser “da natureza” não é sinônimo de segurança.
É o formato, a textura e a forma de uso que contam.
Opções seguras
A boa notícia é que o cão não precisa perder a brincadeira de correr atrás de algo. Só é preciso treiná-lo para trocar o alvo, principalmente se for um pet com muita energia.
Algumas alternativas mais seguras:
- brinquedos em formato de graveto, feitos de borracha ou material próprio para mordida.
- bolinhas adequadas ao porte do cão.
- frisbees flexíveis.
- brinquedos de arremesso projetados especificamente para cães.
Eles foram desenhados justamente para reduzir risco de farpas, cortes e perfurações, mantendo a diversão.
E se meu cão ama gravetos?
Se você já descobriu que seu cão é “viciado” em gravetos, não precisa entrar em pânico, mas é importante mudar o roteiro.
No passeio:
- não incentive a brincadeira com gravetos reais
- leve sempre um brinquedo de arremesso seguro
- recompense quando ele escolher o brinquedo em vez do graveto do chão
Em casa ou no parque, substitua o graveto por algo que lembre o formato, mas seja feito de material apropriado para pets.
Com o tempo, essa troca se torna automática para o cão, especialmente se associada a elogios e interação.
O que fazer em caso de acidente.
Se você perceber que o cão se feriu com um graveto ou engoliu um pedaço, a recomendação é clara:
- não tente “puxar” pedaços profundamente presos na garganta; às vezes isso pode piorar a perfuração
- não ofereça comida ou água na tentativa de “empurrar” o objeto
- leve o cão imediatamente ao veterinário, relatando o ocorrido
Mesmo se ele conseguir vomitar ou parecer melhorar, ainda existe risco de perfuração ou infecção interna.
A avaliação profissional é essencial.
Amor com consciência
Ninguém joga graveto para fazer mal.
A cena é quase um reflexo automático de afeto.
Contudo, o problema é que hoje já sabemos, com dados e casos clínicos, que o risco é alto demais para ser ignorado.
Entretanto, uma brincadeira de segundos pode terminar em cirurgia complexa, dor intensa e até perda do animal.
Amar um cão é também atualizar o repertório de hábitos herdados.
Se alguma prática se evidencia perigosa, a escolha mais amorosa é mudar — mesmo que a cena do comercial fique só na memória.


